Meu roteiro: A experiência mítica e mística de conhecer Machu Picchu

Por Arthur Seixas

26 jul, 2018
Machu Picchu - Peru
Sob nuvens pesadas, Machu Picchu parecia ainda mais envolta em mistério | Arthur Seixas

Abro esta matéria com um verbo em primeira pessoa, propositalmente. Faço questão de frisar, pois nós, jornalistas, estamos sempre tentando nos aproximar ao máximo da ilusória imparcialidade. Logo de cara, no entanto, percebi que escrever sobre Machu Picchu para mim, especificamente, não poderia ser algo distante e imparcial. Pelo contrário, precisava que fosse parcial. Só assim seria verdadeiro. As próximas linhas contam a minha experiência. Essa, portanto, não é uma matéria sobre turismo, mas um relato.O passeio começa sob trilhos com as paisagens que se revelam pela janela do trem.

Quando recebi o convite do Roteiros Incríveis para ir ao Peru, custei a acreditar. Há anos sonhava em conhecer o país. Principalmente, Machu Picchu, assim como dez entre dez turistas. Minha expectativa, imaginem, estava lá no alto. Para vocês entenderem melhor o porquê, faço aqui um parênteses: sempre fui muito urbano, mas há poucos anos, comecei a procurar mais verde, ter mais contato com a natureza. Nesse processo, entendi o que é a energia que move o universo. Eu sei, parece papo de maluco. Não entremos aqui em discussão de crenças. Não é o caso. O fato é que ir para Machu Picchu, nesse momento da minha vida, era o mesmo que para um islâmico ir para Meca.

O passeio começa sob trilhos com as paisagens que se revelam pela janela do trem | Arthur Seixas

Pegamos o trem da Peru Rail na pequena estação de Ollamtaytambo. Quem acha que o passeio se resume ao destino final, se engana. Sobre trilhos durante cerca de duas horas, você verá paisagens estonteantes. De Águas Calientes, última parada ferroviária, seguimos de ônibus pelas sinuosas estradas que levam até a “cidade sagrada”. Aqui já estamos a 2.400 metros de altitude. Para quem tem medo de altura, não aconselho a ir na janela. Para mim, porém, era puro deleite ver os vales cobertos de mata fechada entre os picos montanhosos dos Andes.

 

O quadro de um mito mil vezes reproduzido

Poucos passos depois da catraca de entrada do parque, lá estava. Sabe aquela imagem que você certamente já viu em foto? Pois então, acho que não estava preparado para ver logo de início essa paisagem de forma tão panorâmica. A reação inicial foi mesmo de turistão! Não parava de fotografar (até porque fazia parte do meu trabalho), mas era como se estivesse ligado no automático, sem estar verdadeiramente consciente.

Passado o impacto, minha ficha aos poucos foi caindo na medida em que comecei a caminhar pelo sítio arqueológico. Pude ver de perto as lhamas pastando soltas – e um pouco assustadas com tanta gente! Pude observar como o lugar era conservado. Bom para nós que Machu Picchu tenha sido descoberta somente em 1911, pois ficou a salvo da dominação devastadora dos espanhóis.

O panorama clássico de um dos destinos mais míticos do planeta | Arthur Seixas
Solta no sitio arqueológico, a lhama pasta despreocupada | Arthur Seixas

 

A jornada mística para dentro de si mesmo

Beleza, contudo, não era só o que eu procurava. Apenas no final, quando me deparei com o templo das estrelas, que tudo começou a fazer sentido para mim. Como grande parte das civilizações que já existiram, os Incas também tinham sua própria mitologia. Seus deuses, no entanto, eram elementos da natureza. Eles veneravam o sol, a lua, as estrelas, as montanhas, o arco-íris… Se hoje tivéssemos esse tratamento com o que nos cerca, teríamos mais respeito pela nossa casa, pelo planeta em que habitamos. Certamente eles ainda tinham muito a contribuir para a humanidade.

Não foi bem uma epifania o que tive, uma “experiência religiosa”, como muitos esperam ter – eu, inclusive – ao acessar lugares tidos como místicos. Talvez acreditemos de tanto ouvirmos falar. O ser humano, afinal, é altamente influenciável. A energia é algo que está no campo da subjetividade, do sentir. Importa somente se isso faz sentido para você.

O início da jornada: a porta de entrada da cidadela | Arthur Seixas
Entre pedras se inicia a caminhada pelo sitio arqueológico | Arthur Seixas

Eu, sem dúvida, extraí dali uma lição valiosa sobre respeito e tolerância. Para você, no entanto, pode ser apenas uma visita a uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. De fato, independente de qualquer crença, o lugar é incrível! De tal forma que te leva a agradecer por ter a oportunidade de um dia ter pisado ali. Pois foi isso que fiz. Ao dobrar a última curva antes deixar Machu Picchu, me virei, olhei bem atentamente para frente – dessa vez, com plena consciência – e agradeci.

Veja bem, além de jornalista, sou fotógrafo. Estou acostumado a registrar o mundo pela minha lente. Mas esse momento ficou gravado foi na minha mente. Pode ter certeza, a experiência não fica restrita àquele instante, ela cresce com o passar dos dias. Você rumina aquilo por dentro, mergulha em si mesmo. E os ensinamentos que dali você tira, passam a ser alimento para a sua alma.

O fim do trajeto se aproxima entre montanhas e paredões de pedra | Arthur Seixas
Mais uma vez: o último olhar para guardar na memória | Arthur Seixas

Como chegar em Machu Picchu

Entre no site da Peru Rail (www.perurail.com) para escolher a origem. Existem trens que saem de Ollantaytambo, Urubamba e Cusco. Além disso, você pode escolher a tarifa que melhor caiba no seu bolso, começando por US$ 55. Os vagões de primeira classe servem até lanchinho!

Onde ficar

Se sua opção for sair de Ollantaytambo, para desbravar melhor a região, uma boa pedida é a Casa Andina Valle Sagrado. Conforto e paz em um ambiente agradável, com redes para descanso e quartos com sacadinhas charmosas para a paisagem verde.

 

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Arthur Seixas é fotógrafo e jornalista especializado em viagens, turismo, paisagens e vida selvagem

 

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