Tola Leav: um amigo do Camboja manda abraço para o Neymar

8 abr, 2017
Tola - Camboja - personagens incriveis--
A simpatia de Tola | Filipe Pacheco

Tola Leav ou Jack La são os nomes dele, uma figura. Mora em Siem Reap, no Camboja, e tem dois trabalhos: o da noite é como host de um bar em um beco apertado e animado.

Em um intervalo curto entre um panfleto e outro na rua, ele cuida para que todas as mesas estejam devidamente servidas, verifica se está tudo certo na cozinha, conversa com os clientes do mundo inteiro, dá uma dançadinha na pista, oferece um free shot pra quem passa. E distribui um sorriso pra quem está disposto a trocar meia dúzia de palavras.

 

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Ser turista, muitas vezes, é ver o mundo por uma lente que mascara muita realidade escancarada na nossa frente. O Tola foi uma das poucas chances que tive, durante essa viagem, de escutar um pouquinho sobre a realidade desse lugar que basicamente vive de turismo e turistas – e, portanto, de bolha.

Mas é um lugar que também te lembra a todo instante o que é de fato estar no Camboja, um país pobre que já foi centro de um império e que saiu há pouco tempo de uma das ditaduras mais surreais da história da humanidade.

Eu ja estava quase desistindo de tentar me aproximar das pessoas do lugar, sem achar uma brecha de entrada fácil, quando ele mesmo quebrou uma barreira que eu achei que não conseguiria transpor. Foi só dar espaço.

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AMANHECER NO TEMPLO DE ANGKOR WAT | Filipe Pacheco

O Tola chegou em Siem Reap há cinco anos. Cresceu em uma região rural perto da fronteira com a Tailândia, onde ainda mora boa parte de sua família. Aprendeu inglês depois de adulto, quando veio estudar tecnologia da informação. Aprendeu bem e rápido, acho que é bom aluno. Nessa época, já tinha perdido os pais há mais de dez anos, e a sua família próxima tinha se tornado sua irmã e uma sobrinha, que ele ajuda a criar agora.

Durante o dia: escritório

De o dia ele é vendedor. Trabalha em uma companhia australiana de importação e exportação que compra de fora tudo que o Camboja não produz. Carne, manteiga, computador, diz ele. Ele gosta, mas o trabalho não paga o suficiente para viver só disso.

Já saiu do país duas vezes, foi pra Tailândia e pra Malásia. Gostou mais da Malásia, disse que é “mais nova e moderna”. Ele não gosta de coisa velha.

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Complexo de ruínas de Angkor: atração turística no Camboja | Filipe Pacheco

O complexo de ruínas de Angkor – que inclui o maior templo religioso do mundo e é o centro do império Khmer, razão principal da presença dos turistas todos – é velha demais para os planos dele.

“A gente é amigo”

Quando se formar na faculdade que ele cursa agora, quer trabalhar em uma empresa de tecnologia, de preferência nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Como designer de web, “dando cara para a internet, deixando os sites bonitos”. E ai, quando der, quer passear umas vezes na Europa.

“Mas o visto é muito difícil de conseguir. Tem um monte de europeu que vem pra cá e paga só 30 dólares pra entrar no Camboja, sai tudo na hora. Só que pra gente custa muito mais, quando dá certo. Eu não entendo o porquê, a gente não é perigoso. A gente é amigo.”

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Meu amigo Tola Leav | Filipe Pacheco

Ele tem como ídolo o CEO do Alibaba, gigante chinês de tecnologia. Me falou o nome do cara e eu nem me toquei quem era. Jack Ma, daí a inspiração para Jack La. Tomei bronca: ele disse que eu, por ser jornalista, devia saber. Ponto pra ele.

Descobri que temos a mesma idade. Nascemos no mesmo ano, ainda que em mundos diferentes. Mas acho que, no fim, a gente quer as mesmas coisas, pensa parecido. Quando eu perguntei o que ele se via fazendo daqui uns 20, 30 anos, ele disse que queria voltar pra região onde ele nasceu e cresceu.

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Tola distribui panfletos na noite de Siem Reap | Filipe Pacheco

Comprar uma terra por lá, construir uma casa, viver tranquilo perto de quem ele gosta. Mas disse que pra chegar lá, ele precisa passar antes um bom tempo em Siem Reap, estudar e trabalhar. E também conhecer o mundo.

Quando falei que era brasileiro, ele me disse pra mandar um abraço pro Neymar. Espero que o Neymar um dia também tenha o prazer de conhecê-lo.

 

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Fotos: Filipe Pacheco. Jornalista de economia de coração eternamente paulistano, mora em Dubai, adora viajar, fotografar e conversar com os amigos que faz em durante seus roteiros incríveis. Veja mais fotos dele: instagram.com/fihpacheco

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