Meu roteiro: Dicas para viajar sozinha para o deserto do Atacama

Por Clarissa Jereissati

24 out, 2017

Faça uma pesquisa rápida sobre destinos para viajar sozinha e o que você vai encontrar é uma lista de grandes metrópoles que oferecem uma enorme variedade de entretenimento (museus, parques, shoppings…) e também uma boa estrutura de transporte e segurança. À primeira vista, uma viagem para um deserto estaria fora de cogitação, afinal, que entretenimento você teria no meio de um lugar como esse e ainda mais sozinha?

Pode parecer estranho, mas depois de várias viagens solo na bagagem posso afirmar que o deserto do Atacama é um dos melhores (e mais mágicos) lugares para ir quando suas férias não coincidirem com as férias de mais ninguém!

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Piedras Rojas: primeira vez que vi um vulcão | Clarissa Jereissati

E o fator determinante para isso é que no Atacama você não faz nada sozinho –  todos os passeios são feitos em grupos através de agências especializadas (e se você fecha todos os passeios com uma mesma agência, é bem provável que os grupos se repitam em diferentes passeios e novas amizades surjam).

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Viagem solo: fazendo amigos no deserto do Atacama | Clarissa Jereissati

A altitude é outro fator agregador – quem diria. Por causa dela as pessoas estão sempre preocupadas umas com as outras e, constantemente, estão perguntando se você bebeu água, se comeu, se está com dor de cabeça, se quer uma folha de coca… É bonito de ver e de sentir.

O número de pessoas viajando só pelo deserto é grande e, se você está pensando em ir para esse destino, só tenho duas coisas para dizer: leia esse texto e corra para lá o mais rápido possível! Se essa é sua primeira viagem por um lugar desértico e de contato com natureza, se prepare: ficar de queixo caído é uma constante.

Como chegar

Minha primeira parada foi em Santiago. Depois de uma breve conexão segui para Calama, cidade onde há o aeroporto mais próximo de São Pedro do Atacama. Do voo (de aproximadamente 1h30m) já é possível ver o visual impressionante do deserto. Quilômetros a perder de vista de solo terracota pontuado por algumas lagoas.

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Do avião: cenário já da uma ideia do que estar por vir | Clarissa Jereissati

Quando cheguei, o transfer que reservei diretamente com o albergue que me hospedaria já me aguardava. Me juntei ao grupo e, em menos de 1 hora, estávamos cruzando o Valle de la Muerte. Era fim de tarde e o sol evidenciava ainda mais as tonalidades avermelhadas que eram interrompidas somente pelas partes cobertas de sal – que em um primeiro momento você acha que é neve.

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Cruzando o Valle de la Muerte ao chegar em São Pedro do Atacama | Clarissa Jereissati

 

Como fechar passeios no Atacama

O primeiro dia de todo turista no Atacama tem passagem obrigatória pela Caracoles, a rua principal da simpática cidade. De toda a sua extensão é possível ver o Licancabur, vulcão mais famoso da região.

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Rua Caracoles, a principal de São Pedro do Atacama, com o vulcão Licancabur ao fundo | Clarissa Jereissati

É nessa rua que ficam os restaurantes, lojas e a maior parte das agências de turismo que ofertam passeios. É muito comum deixar para fechar os tours quando se chega na cidade, pesquisando os preços em cada uma das agências. No meu caso, preferi fazer pesquisas pela internet lendo comentários de outros viajantes e fechei tudo ainda no Brasil, com a FlaviaBia Expediciones.

Comandada por uma brasileira de astral super leve, que largou tudo no Brasil depois de se apaixonar pelo Atacama, a agência é especializada em atender brasileiros e tem vários diferenciais como guias bem preparados, carros em ótimo estado, toalhas e roupões para os passeios que envolvem água, kit com produtos essenciais para encarar o deserto (mochila, garrafa para água, álcool gel e protetor labial – o kit é para quem fecha acima de 5 passeios), comidas sempre frescas e saborosas (muitos passeios já incluem alimentação), massagem relaxante e a facilidade de poder acertar tudo via WhatsApp, em português.

Escolher a agência certa faz toda diferença na experiência que você vai ter, então tenha cuidado, pesquise bem e leve avaliações de viajantes em consideração.

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Durante o passeio, paramos para um café da manhã com vista para o vulcão | Clarissa Jereissati

 

O que você não pode deixar de visitar no Atacama

Piedras Rojas e Laguna Altiplânicas

Primeiro passeio da minha experiência no Atacama e um dos que mais gostei. A van da agência passou para me buscar antes do sol nascer. A viagem é longa, mas há muitas paradas pelo caminho que amenizaram a distância.

Começar por Piedras Rojas tem um lado bom e um ruim: logo de cara você tem aquele impacto com as belezas do lugar, mas é um tour que te leva a mais de 4 mil metros de altitude. O aconselhável é primeiro se aclimatar nas altitudes intermediárias e seguir para esse tipo de passeio a partir do terceiro dia. No meu caso, acabei passando mal.

Como o nome diz, a paisagem de Piedras Rojas é marcada por um agrupamento de pedras avermelhadas, na beira de um lago que tem como plano de fundo um vulcão com o topo coberto de neve. Eu nunca tinha visto um vulcão antes, então foi muita emoção.

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Visual mágico em Águas Calientes: pouco antes da altitude me pegar | Clarissa Jereissati

Antes de seguirmos para as Lagunas Altiplânicas, fizemos uma parada no Salar de Águas Calientes para tomar café da manhã e tirar algumas fotos do visual que mais parecia uma pintura. Foram mais uns bons quilômetros até chegar nas lagoas Miscanti e Miniques, as famosas Lagunas Altiplânicas – onde mais vulcões contemplavam a paisagem. Finalizamos o passeio com um almoço com vista para o Licancabur.

Salar de Tara

Esse é o passeio que pode te oferecer algumas das paisagens mais impressionantes e com a maior cara daquele lugar que a gente imagina quando pensamos em deserto. O que achei melhor no passeio não foi o Salar em si, mas o caminho que te leva até ele. São quilômetros e mais quilômetros, passando por montanhas terracota habitadas unicamente por vicunhas e algumas lhamas. Paredões rochosos formados por erupções vulcânicas impressionam pela dimensão. O vento e o frio aqui foram intensos e chegamos a mais de 4,7 m de altitude.

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A caminho do Salar de Tara, no Atacama | Clarissa Jereissati
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A magnitute dos Monjes de la Pacana, a caminho do Salar de Tara | Clarissa Jereissati
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Salar de Tara: lugar impressiona | Clarissa Jereissati

 

Laguna Cejar

Boiar em águas que não te deixam afundar não é privilégio das lagoas do deserto do Atacama, você também pode viver essa experiência no Mar Morto, por exemplo. Mas, boiar em lagoas com águas cristalinas que não te deixam afundar e ainda ter como cenário vulcões cobertos de neve é uma experiência única que vale a pena!

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Boiando sem o menor esforço na Laguna Cejar | Clarissa Jereissati
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Pôr do sol da Laguna Tebinquiche | Clarissa Jereissati

O passeio te leva ainda para os Ojos del Salar (duas crateras com água normal, onde se pode mergulhar) e tem como “grand finalle” um pôr do sol estonteante, regado a coquetel na laguna Tebinquiche. A cartela de cores que compõem esse momento de mais pura contemplação da natureza varia do amarelo até o violeta. Vale a pena parar alguns instantes e apenas agradecer.

Termas de Puritama

Viajar pelo deserto não é fácil e, por vezes, bem cansativo. Acordar cedo para os passeios, caminhar, lidar com os efeitos da altitude… Chega uma hora em que relaxar é preciso e o melhor lugar para isso são as Termas de Puritama – um conjunto de oito piscinas termais com propriedades terapêuticas e medicinais localizadas em um cânion e com temperaturas que variam entre 32 e 34 graus. Para deixar a experiência ainda mais relaxante, a FlaviaBia oferece uma massagem dentro da água. O passeio dura um período e é finalizado com coquetel.

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Passarela de acesso as piscinas das termas de Puritama | Clarissa Jereissati
Atacama-Chile- termas de Puritama
Banho de cachoeira nas termas de Puritama: pra lavar a alma | Clarissa jereissati

Trecking no Valle de la Muerte e Valle de la Luna

Esse é um dos passeios mais tradicionais por lá, mas calhou de acontecer um referendo que parou todo o Chile no dia em que eu tinha agendado. Quase tudo estava fechado e só conseguimos ter acesso ao Valle de La Luna – mas mesmo assim foi ótimo! Caminhamos por dunas, cânions e finalizamos com um coquetel ao pôr do sol. Hora de cada um escolher sua pedra para sentar e apreciar as belezas do lugar.

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A beleza paradisíaca do Valle da la Luna, no Atacama | Clarissa Jereissati

Tour Astronômico

Esse foi o único tour que não fiz com a FlaviaBia, já que ele é exclusivo da agência Space (que fica na rua Caracoles) e é bem disputado. Consegui uma vaga de última hora, fui sem nenhuma expectativa e foi um dos tours mais incríveis que fiz. O Atacama é um dos melhores locais para observação estrelar no mundo. Fiz o tour em inglês, comandando por um canadense super simpático e divertido, que conseguia deixar tudo ainda mais interessante – inclusive nos fez esquecer o frio que fazia. Para finalizar, um bate-papo tira dúvidas regado a chocolate quente. Imperdível.

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Tour para observar estrelas no Atacama: sensacional | SPACEOBS.COM

 

Dicas úteis

» Beba sempre muita água.
» Muitos vezes os banheiros que você vai encontrar pelo caminho são os “banheiros incas”, forma com que eles chamam carinhosamente aquela pedra no meio do caminho. Por isso é imprescindível levar lenços e álcool gel.
» Na altitude, procure fazer tudo lentamente e sem desobedecer as orientações. No meu primeiro dia não escutei as indicações do guia e resolvi subir um morrinho que parecia bem inofensivo. Em questão de minutos fui de “a altitude não tem o menor efeito sobre mim” para “passando muito mal”. Só depois de mais de 1 hora comecei a me recuperar.
» É comum os hotéis e albergues prepararem um lanche para você levar quando sai para os passeios antes do café ser servido. Basta avisar na noite anterior e na manhã seguinte o seu “desayuno” estará lá separado para você levar (mesmo que o passeio envolva café da manhã, pode demorar um pouco até que essa parada seja feita, então é melhor garantir).
» A vila de São Pedro do Atacama conta com restaurantes para todos os gostos e bolsos. Alguns dos mais famosos são o Adobe, La Estaka e La Casona, mas o que mais gostei foi o Barros Café. O suco de frutas vermelhas faz muito sucesso e, além de tudo, tem wifi (quase uma raridade por lá).
» Muitas pessoas gostam do passeio para os Geisers. Particularmente, esse foi um dos passeios que menos curti. Além de ter visto anteriormente os geisers da Bolívia, que na minha opinião tem uma paisagem mais interessante, o frio intenso (-15°) foi sofrido pra mim. O que achei mais interessante nesse passeio foi o passagem pelo povoado de Machuca.
» Se tiver um tempo livre, vale a pena fazer o Free Walking Tour pelo centro da vila. É bacana para entender um pouco do misticismo da região, sua história e lendas.

O Chile é de longe um dos países que mais surpreendem pela diversidade de suas paisagens e também pela qualidade dos serviços oferecidos quando falamos de turismo. Tudo é muito estruturado e organizado. Foram ao todo 10 dias de viagem (sendo 3 deles em expedição ao Salar de Uyuni) e não teve um único dia sem que as paisagens me deixassem sem palavras.

A todo mundo que eu conheço eu digo: se você ama viajar, não dá pra viver uma vida sem ir ao Atacama.

 

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Clarissa Jereissati acredita que é viajando que ela consegue unir todas as áreas de seu interesse. Especialista em marketing e comunicação de moda e arquiteta por formação, adora conhecer cidades e observar seus habitantes.

 

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